sábado, 2 de outubro de 2010

Hello, Goodbye

Sai do banho, voltei pro quarto. Guardei as coisas na bolsa e me permiti aproveitar mais uns minutinhos com ele enquanto os Beatles nos davam bom dia. Pelo canto do olho enxerguei minha varanda preferida, fui até lá e fiquei sentada no sofá, pensando, pensando e pensando. Tantas coisas passaram pela minha cabeça durante aqueles sete minutos que até parecia ter passado mais tempo. Senti vontade de levantar, buscar a câmera e tirar uma foto daquele lugar, que desde a primeira vez exerce algum tipo de magia sobre mim. Mas, desisti, e resolvi passar um minuto olhando pra paisagem até que ela ficasse gravada aqui dentro pra me salvar dos momentos de desespero e de saudade. E lá de dentro uma voz:
- Entra aqui, menina! Olha essa friagem!
Já estava sorrindo da mais nova bobeira quando virei e encontrei aquele rosto, o meu sorriso triplicou e voltei pro quarto. Fiquei sentada na cama conversando, enquanto, por dentro, ensaiava mil coisas que eu gostaria de falar desde a quinta-feira quando nos encontramos e tentando descobrir qual seria a hora mais propícia pra começar a tal "DR". Descemos pra almoçar e suas gracinhas, como sempre, me fizeram rir bastante. É engraçada a forma com que me sinto acolhida naquela casa, e como tenho cuidado e carinho por todos. Sinto falta quando passo muito tempo sem ir. Das pessoas, dos cachorros, da varanda, da comida...
Eu ainda tinha mais algum tempo antes de viajar e fomos ao salão, deveria ter acreditado quando me falou que ia fazer algo diferente. Até ficar pronto, eu balancei muito o pézinho demonstrando a minha agonia e ansiedade pra ver o resultado enquanto o cabeleireiro se divertia as minhas custas fazendo piadinhas. Lindinho, como sempre, se a senhorinha sentada ao lado não tivesse feito mil elogios, acharia que eu estava realmente muito derretidinha por esta pessoa. Voltamos pra casa, já era bem tarde, só daria tempo de pegar a bolsa e ir rapidinho pra rodoviária. Depois de descobrir que o ônibus passava as 17h e não as 16h como eu pensava, tive que partir pra um plano B e pedir um táxi. Enquanto a vózinha fofa procurava o melhor táxi pra me levar, eu fiquei deitada mexendo no laptop. Mera coincidência ou obra desse destino que volta e meia resolve aprontar comigo, caiu numa música nova, de título tão confuso quanto os pensamentos de quem escreveu. Redobrei a minha atenção a fim de escutar cada detalhezinho, numa tentativa meio infantil de me achar naquela letra, e infelizmente ou felizmente, ainda não sei, me achei. Esperei que ele entrasse no quarto e falei:
- Juro que não procurei, tava vendo umas coisas aqui...
Acho que a minha cara me entregou, nem precisei terminar a frase, escutei um palavrão e vi o seu rosto ficar meio rosado. Ele deitou do meu lado, perguntou o que eu tinha achado da música. Falei que era legal e encostei minha cabeça no peito dele. Ficamos conversando um pouco, gosto de ver o rosto dele daquele ângulo. Quis escutá-la de novo, pra ter certeza que era legal mesmo. Enquanto isso tirei um pacotinho de dentro da bolsa.
- Toma, põe na tua carteira, pra te proteger.
- É um escapulário? Tá bento?
- Sim ,sim.
A minha mania de repetir as palavras se encaixou perfeitamente na resposta das perguntas.Para o meu espanto, escutei:
- Vou usar.
Já estava satisfeita com a ideia dele guardar na carteira, nem no meu mais remoto pensamento achei que ele fosse usar. Aquilo me agradou tanto, a santinha que me escutou quando nos tínhamos brigado, que me fez ganhar a rosa como prova de que o meu pedido seria atendido, agora estava na imagem daquele escapulário no pescoço dele. Pra qualquer aprendiz de beata, como eu, é um sentimento de graditão enorme. Enfim, problema do táxi resolvido. Peguei minha bolsa, e meu corpo inteiro travou, a vontade de ficar era tanta, nem que fosse só por hoje, só por mais um show. Respirei fundo e fui saindo do quarto, seguindo aquele grande par de chinelos de fivelinhas que eu gosto, tanto nos pés dele quanto nos meus. Sabendo que não poderia me despedir lá embaixo, falei o seu nome, ele virou e eu pedi pra que chegasse perto. Dei um abraço, um beijinho na bochecha. É tão difícil ter que dar tchau. Queria ficar ali, abraçadinha, escutando:
- Obrigada por ter vindo! Fica bem, tá? Se cuida.
Falados num tom tão irônico e cômico, que por um momento me fizeram rir, mesmo com o coração apertadinho por ter que ir embora. Como de costume, quase fui derrubada pelos cachorros e apressei o passo pra passar logo pelo portão, me despedi da vózinha fofa, mais um beijo e um abraço rápido nele e o taxista já estava com a porta do carro aberta esperando que eu entrasse.
Dentro do táxi, me dei conta de que mais uma vez os meus olhinhos estavam começando a ficar molhados, sempre acontece, como uma espécie de saudade instantânea. Peguei o celular e digitei uma mensagem, precisava falar o que estava pensando enquanto poucos quilômetros de distância nos separavam. O velho hábito de checar as coisas da mala, me fez perceber que havia esquecido o meu cachecol. Da primeira vez uma toalha, da vez passada um par de meias, dessa vez um cachecol,meu preferido. Parece que a minha memória é ainda mais fraca quando estou lá, deve ser o meu subconsciente tentando avisar à essa pessoa que cada vez que preciso me despedir e voltar pra outra cidade mais um pouquinho de mim fica ali, com ela.

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